NO REMOINHO DO PODER*
Iraci del Nero da Costa
São Paulo, abril de 2004
Para muitos de nós, o comportamento dos norte-americanos denuncia uma atitude de superioridade e arrogância decorrente da prepotência característica do dominador assentado numa base material e técnica colocada acima da prevalecente no resto do planeta. Segundo tal modo de ver, os norte-americanos também superestimariam seus valores éticos e políticos, tomando-os como situados em um patamar ainda não alcançado por nenhuma outra nação. Enfim, a soberba e a prepotência seriam típicas desse povo por muitos de nós considerado politicamente não sofisticado e culturalmente pouco refinado.
A meu ver, a visão aqui reportada padece do simplismo atribuído aos norte-americanos. Afora o assim chamado "americano médio", o qual poderia ser envolvido por sentimentos de superioridade injustificáveis, por via de regra lastreados em informações parciais ou distorcidas, existe nos EUA uma elite cultural e política que não se deixa levar por argumentos falaciosos e ligeiros.
É preciso, pois, aprofundar a consideração desse "sentimento de superioridade" a fim de se identificar seus determinantes efetivos, os quais se enraízam na cultura americana não sendo, portanto, meros elementos superficiais de uma postura simplesmente preconceituosa, da qual é acusado o aludido americano mediano.
A meu juízo, antes de se dever a um pretenso "complexo de superioridade", a atitude em foco reflete uma preocupação extremada dos norte-americanos com os compromissos que historicamente sua nação assumiu com os ideais democráticos, com as garantias individuais dos cidadãos e com a defesa e preservação das liberdades de pensamento, organização, expressão e iniciativa. Lembre-se, aqui, que tal comprometimento viu-se fortalecido pela luta dos EUA contra o nazi-fascismo e a posterior disputa com a URSS. Impõe-se aos norte-americanos, pois, patentearem, básica e essencialmente no plano das idéias, sua devoção e respeito a suas sãs tradições. (1) Assim, em vez de exprimir um antipático "complexo de superioridade", a soberba da qual são tachados pode denotar a tentativa de fuga de um inescapável sentimento de inferioridade que os tomaria caso fossem obrigados a reconhecerem sua infidelidade às referidas tradições. Admitir tal inconfidência não só significaria rebaixarem-se ante si mesmos, mas, também, desmoralizarem-se definitivamente perante todos seus interlocutores internacionais. Assim, ao desgaste "psicológico" decorrente daquele rebaixamento, somar-se-iam as perdas políticas derivadas da corrosão da autoridade norte-americana no cenário diplomático mundial.
Dessarte, a fim de legitimarem, perante seus próprios valores democráticos, suas ações velada ou abertamente intervencionistas com respeito às nações não desenvolvidas – o que fazem pragmaticamente em serviço de seus interesses, mas com a alegação sempre presente de que obedecem àqueles valores democráticos –, as elites norte-americanas elaboraram um conjunto de argumentos político-ideológicos calcado nos dois elementos (2) básicos abaixo explicitados.
Com relação às nações subdesenvolvidas do terceiro mundo utilizam-se da tese segundo a qual elas não adotam seriamente os preceitos democráticos e de que nelas impera a corrupção, a ineficiência administrativa e a incapacidade gerencial; isto tanto no âmbito do setor público como na órbita da iniciativa privada.
Justifica-se, dessa forma, todo tipo de intervenção, bem como a adoção aberta da corrupção. Neste último caso estar-se-ia, tão-somente, a usar um instrumento do qual as sociedades "autóctones" servem-se larga e costumeiramente; assim, a corrupção, quanto útil aos norte-americanos, deixa de ser um ato ilícito para transformar-se, dado o movimento ideológico que opera tal metamorfose, num mero expediente mediante o qual se pretende, mais rápida e eficazmente, alcançar os objetivos perseguidos, os quais, por sua vez, já se acham justificados por atenderem aos interesses norte-americanos, interesses estes que sempre poderão ser referidos aos valores democráticos acima apontados. Quanto às demais formas de intervenção, cujo caráter pode ser político, econômico ou militar, vêem-se elas explicadas pela necessidade de se assegurar, em nações que não o fazem suficientemente, o respeito às liberdades e à democracia.
Já o segundo elemento básico ao qual fizemos menção, diz respeito às nações desenvolvidas – basicamente as da Europa Ocidental – que, eventualmente, venham a suscitar algum reparo ou restrição às ações desenvolvidas pelos EUA. Neste caso os norte-americanos alegam que os governos de tais países demonstram-se incapazes de compreender as motivações dos EUA. Assim, os políticos das "nações amigas", dada sua incapacidade para alcançar os reais móveis norte-americanos, mostrar-se-iam desqualificados para julgar as medidas postas em prática pelos EUA ou por seus conglomerados econômicos. Como se observa, neste último caso o movimento ideológico transforma a crítica em incompreensão, eliminando, portanto, a necessidade de os EUA virem a reconhecer um eventual erro ou serem obrigados a admitir a adoção de meios que pudessem ser considerados ilícitos ou ilegais.
De toda sorte, em ambos os movimentos ideológicos aqui descritos (3) sempre comparece a inferioridade do "outro": incompreensão dos parceiros mais desenvolvidos; corrupção e incompetência dos mais atrasados. Justamente neste aspecto reside a fragilidade do arcabouço ideológico acima delineado, pois é esta aparente transposição imediata e grosseira de uma inconteste superioridade material para o plano político que faz os norte-americanos parecerem, aos olhos de muitos de nós, tão cinicamente confiantes e arrogantes. Na verdade, o mecanismo ideológico por eles utilizado nos parece tão elementar que antes de os tomarmos por cínicos, os consideramos ingênuos. Trata-se, não obstante, de um grupo de ingênuos dos mais perigosos, pois suas decisões e métodos chegam a ser absolutamente irresponsáveis; sirva aqui como exemplo a calamitosa ocupação do Iraque, ora a viver um de seus mais sangrentos capítulos.
Assim, independentemente de nossas opiniões e da justeza de nossas análises, duas idéias devem restar fixadas muito solidamente. Em primeiro, os norte-americanos são os dominadores, nós os dominados. Em segundo, o futuro próximo da humanidade encontra-se nas mãos deles; já quanto ao futuro mais longínquo, nada indica que nele venhamos a desempenhar algum papel de relevância. Em face disto, qualquer limitação que puder ser imposta aos EUA sempre será bem recebida, mesmo se vier a ser adotada sob os auspícios da desfibrada e desmoralizada Organização das Nações Unidas.
NOTAS
(*) Cumpre lembrar que a presente crônica foi escrita antes de virem a público as notícias referentes às torturas infligidas a prisioneiros iraquianos por soldados americanos e ingleses. Note-se, ademais, que as repercussões de tais notícias nos EUA, e em especial as dimensões de escândalo que ali elas assumiram, corroboram as idéias esposadas pelo autor deste artigo.
(1) Este apego dos norte-americanos a suas instituições democráticas, assim como com o simbolismo que as cerca, encontra-se tão fundamente firmado que, nos EUA, um golpe de Estado só pode se dar se transcorrer no âmbito da "legalidade". Foi isto que ocorreu no caso da eleição de George W. Bush à presidência da República. As condições conjunturais decorrentes da confusão havida nas apurações foram rapidamente entendidas e manipuladas pelo Partido Republicano de sorte a levar, mediante uma série de decisões judiciais, hábil e fulminantemente arranjadas, seu candidato, que perdeu nas urnas, ao poder supremo da nação. Tudo pareceu se dar dentro da legalidade e o golpe de Estado confundiu-se com um mero golpe de sorte.
(2) Como em toda construção ideológica, elementos efetivamente existentes servem de base às generalizações que passam a ocupar todo o espaço reservado ao real fazendo com que este último veja-se falseado por ser confundido inteiramente com apenas um de seus aspectos. Como já foi repisado à saciedade, o movimento ideológico dá-se, justamente, quando a parte, sendo identificada com o todo, toma o seu lugar e o torna inacessível.
(3) Tome-se, por sua notoriedade, a figura de Jimmy Carter como exemplo dos norte-americanos que não se deixam envolver pelos movimentos ideológicos aqui propostos.